A vasectomia pode ser desfeita. A cirurgia que faz isso se chama reversão de vasectomia: com o auxílio de um microscópio, o cirurgião religa o canal que foi cortado na vasectomia, e os espermatozoides voltam a aparecer no sêmen na maior parte dos homens operados. É um procedimento feito há décadas, com resultados bem documentados na literatura médica.
Quem pesquisa o assunto raramente quer saber só se dá ou não dá. A pergunta de verdade é qual a chance de a reversão terminar em gravidez, e essa resposta muda bastante de um casal para outro. Pesam o tempo que passou desde a vasectomia, a idade e a fertilidade da parceira e o tipo de religação que a cirurgia vai exigir, que só se define com o paciente já na mesa de operação. As seções abaixo explicam cada um desses pontos, com os números publicados e o que eles significam na prática.
O que a vasectomia interrompe e o que a reversão reconstrói
Na vasectomia, o urologista corta o ducto deferente, o canal que leva os espermatozoides do testículo para fora. O testículo continua produzindo espermatozoides normalmente depois disso, e o que muda é que eles deixam de chegar ao sêmen. É por isso que a vasectomia funciona como método contraceptivo, e é também por isso que ela pode ser revertida, já que a produção segue intacta e o que foi interrompido foi o caminho.
A reversão refaz esse caminho. O canal por dentro do ducto deferente é muito estreito, com calibre em torno de meio milímetro. Unir duas pontas desse tamanho com precisão exige microscópio cirúrgico e treinamento específico, e por isso a reversão é uma microcirurgia.
Duas formas de religar, e por que a escolha acontece durante a cirurgia
Durante a operação, o cirurgião examina o líquido que sai do ducto deferente logo acima do ponto da vasectomia. O que aparece nesse líquido decide a técnica.
Quando o líquido tem espermatozoides, ou quando é claro e abundante, o caminho até o testículo está aberto e a religação é feita ponta com ponta. Essa técnica se chama vasovasostomia. É a mais frequente e a que tem os melhores resultados.
Quando o líquido vem sem espermatozoides e com aspecto espesso, o mais provável é que, ao longo dos anos, tenha se formado uma obstrução mais acima, no epidídimo, a estrutura colada ao testículo onde os espermatozoides amadurecem e ficam armazenados. Nesse caso, religar as duas pontas do ducto não resolve, porque o bloqueio está antes delas. A ligação precisa ser feita entre o ducto deferente e o próprio epidídimo, numa técnica chamada vasoepididimostomia. É uma cirurgia mais delicada, com taxas de sucesso menores e em que os espermatozoides demoram mais para voltar ao sêmen.
Como não há como saber de antemão qual das duas técnicas o caso vai pedir, a reversão precisa ser feita por um cirurgião que domine as duas. Se apenas a primeira estiver disponível e o achado da cirurgia indicar a segunda, o resultado fica comprometido.
Reversão de vasectomia: a taxa de sucesso muda com o tempo
O tempo entre a vasectomia e a reversão pesa no resultado. Quanto menor ele for, maior a chance de a fertilidade voltar e menor a chance de a cirurgia precisar da ligação com o epidídimo.
O levantamento mais citado sobre o assunto acompanhou mais de 1.200 homens que fizeram a reversão pela primeira vez, em cinco centros, e separou os resultados pelo tempo decorrido desde a vasectomia. Ele mede duas coisas diferentes: a volta dos espermatozoides ao sêmen e a gravidez da parceira.
| Tempo desde a vasectomia | Espermatozoides de volta no sêmen | Gravidez |
|---|---|---|
| Menos de 3 anos | 97% | 76% |
| De 3 a 8 anos | 88% | 53% |
| De 9 a 14 anos | 79% | 44% |
| 15 anos ou mais | 71% | 30% |
Considerando todos os intervalos juntos, os espermatozoides voltaram ao sêmen em 86% dos homens, e a gravidez aconteceu em 52% dos casais de quem se tinha essa informação.
Duas coisas ajudam a ler a tabela. A queda é gradual e não existe uma data a partir da qual a reversão deixa de ser possível: mesmo com quinze anos ou mais, sete em cada dez homens voltaram a ter espermatozoides no sêmen. E a distância entre as duas colunas aumenta com o tempo, o que leva ao ponto mais importante deste texto.
O tempo, sozinho, não impede a reversão, desde que o cirurgião esteja habilitado a fazer a ligação com o epidídimo quando ela for necessária. O que limita a indicação são condições que, por si só, já apontam para a reprodução assistida, como a obstrução das duas trompas da parceira ou uma lesão que torne a reconstrução impossível.
Espermatozoides de volta no sêmen ainda não significam gravidez
A cirurgia pode ter funcionado, com os espermatozoides de volta no sêmen, e a gravidez ainda assim não acontecer. Isso tem duas explicações principais.
Do lado do homem, a quantidade e a qualidade dos espermatozoides depois da reversão variam de um caso para outro, e tendem a ser menores quando foi preciso fazer a ligação com o epidídimo. Quando o espermograma depois da religação ponta com ponta vem normal, a chance de gravidez fica acima da média da tabela.
Do lado do casal, a chance de engravidar depende da idade e da fertilidade da mulher, exatamente como acontece com qualquer casal que está tentando. Num grupo de homens operados quinze anos ou mais depois da vasectomia, a taxa de gravidez foi de 64% quando a parceira tinha menos de 30 anos e de 28% quando ela tinha mais de 40. Por isso a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva recomenda avaliar o potencial reprodutivo da parceira antes da reversão. Olhar para os dois faz parte de qualquer investigação de fertilidade, e a reversão segue a mesma lógica.
A reversão devolve ao casal a possibilidade de engravidar de forma natural. Nenhuma técnica garante a gravidez, e uma expectativa calibrada desde o começo evita boa parte da frustração.
Quanto tempo depois da reversão dá para engravidar
Os espermatozoides não aparecem no sêmen logo depois da cirurgia. Depois da religação ponta com ponta, a maioria dos homens já tem espermatozoides no sêmen nos primeiros meses. Depois da ligação com o epidídimo, o retorno é mais lento, e em parte dos homens passa de um ano.
O acompanhamento é feito com o espermograma, o exame do sêmen, alguns meses depois da cirurgia e repetido até os números se estabilizarem. Um primeiro exame ainda sem espermatozoides não encerra a questão, principalmente quando a técnica usada foi a vasoepididimostomia.
Para a gravidez, a conta é mais longa, porque soma o tempo de retorno dos espermatozoides ao tempo que qualquer casal leva para engravidar. Na prática, a gestação depois da reversão costuma vir em torno de um ano após a cirurgia, às vezes mais. Num estudo europeu com casais que fizeram a reversão, o tempo médio até a gravidez foi de cerca de 16 meses.
Como é a cirurgia e a recuperação
A reversão é feita com anestesia, dura em torno de duas a quatro horas e, na maioria dos casos, o paciente vai para casa no mesmo dia. O desconforto depois da cirurgia é controlado com medicação. A volta às atividades habituais acontece em poucos dias, com restrição de esforço físico e de atividade sexual por algumas semanas.
Perguntas frequentes
A vasectomia pode se desfazer sozinha?
Existe a possibilidade de o canal voltar a se abrir por conta própria, o que se chama recanalização, mas isso é raro e imprevisível. Não é algo com que um casal possa contar para engravidar. É justamente por esse risco, ainda que pequeno, que o espermograma de controle depois da vasectomia confirma a ausência de espermatozoides antes de o método ser considerado seguro.
A reversão muda a ereção, o desejo ou o volume do sêmen?
A vasectomia não interfere na produção de testosterona, na ereção nem no desejo, e não muda de forma perceptível o volume do sêmen ou a sensação. A reversão também não. Depois de uma reversão bem-sucedida, a única mudança é a presença de espermatozoides no sêmen.
Por onde começar
A primeira consulta sobre reversão olha para o casal: quando e como a vasectomia foi feita, a idade e a avaliação de fertilidade da parceira e quantos filhos vocês pretendem ter. Cada caso é avaliado individualmente, e é com essas informações que se define a melhor indicação para cada casal e se estima a chance real de sucesso.
Referências: Vasovasostomy Study Group. Results of 1,469 microsurgical vasectomy reversals. Journal of Urology, 1991. DOI 10.1016/s0022-5347(17)38381-7. Vasectomy reversal performed 15 years or more after vasectomy: correlation of pregnancy outcome with partner age. Fertility and Sterility, 2002. Pregnancy after vasectomy: surgical reversal or assisted reproduction? Human Reproduction, 2018. DOI 10.1093/humrep/dey101. The kinetics of sperm return and late failure following vasovasostomy or vasoepididymostomy: a systematic review. American Society for Reproductive Medicine, Practice Committee, Vasectomy reversal. American Urological Association, Vasectomy Guideline.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica.
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