A palavra andropausa foi construída por empréstimo. Alguém observou que a testosterona do homem cai com a idade, lembrou da menopausa e criou o paralelo. A comparação pegou, virou título de reportagem e nome de tratamento, mas ela não descreve bem o que acontece no corpo masculino.
Na mulher, a menopausa é um evento delimitado. Os ovários param de produzir hormônio, a menstruação acaba e existe uma data para marcar no calendário. No homem não há nada equivalente. A produção de testosterona diminui devagar, ao longo de décadas, em ritmos que variam bastante de uma pessoa para outra, e boa parte dos homens envelhece sem jamais chegar a um nível que justifique tratamento.
Por isso a resposta à pergunta do título tem duas partes. A andropausa entendida como uma menopausa masculina não existe. Já a condição que essa palavra tenta descrever é real, tem nome próprio, critério de diagnóstico e tratamento. Confundir as duas coisas é o que leva muito homem a tomar hormônio sem necessidade, e faz com que outros tantos, que realmente precisariam de investigação, nunca cheguem a ser avaliados.
O que o termo andropausa deixa de fora
O sufixo pausa carrega a ideia de interrupção, e é justamente isso que não acontece com o homem.
A queda da testosterona masculina é progressiva. De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia, ela gira em torno de 1% ao ano a partir dos 40. É pouco de um ano para o outro e é bastante ao longo de vinte, o que explica por que o sintoma costuma ser percebido como envelhecimento comum e não como uma mudança que mereça consulta.
Existe ainda uma segunda diferença, mais importante do que a primeira na hora de decidir conduta. A menopausa acontece em praticamente todas as mulheres. A queda hormonal com repercussão clínica não acontece em todos os homens. Ela depende do ponto de partida de cada organismo, da velocidade dessa queda e da presença de outras condições de saúde que interferem na produção hormonal.
O nome correto é Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino
Quando a queda de testosterona passa a produzir sintomas, ela deixa de ser envelhecimento e passa a ser diagnóstico. A medicina chama esse quadro de Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino, abreviado como DAEM. Na literatura internacional o mesmo quadro aparece como hipogonadismo tardio ou deficiência de testosterona.
A troca de termo não é preciosismo de vocabulário, porque os dois nomes descrevem coisas diferentes. Andropausa nomeia uma fase da vida, algo que aconteceria com todo mundo e sobre o que não haveria decisão a tomar. DAEM nomeia uma condição clínica, que uma parcela das pessoas tem, que se confirma por critério e que se trata quando confirmada. É o primeiro enquadramento, o de fase inevitável da vida, que sustenta a oferta de reposição hormonal masculina para quem não tem indicação nenhuma.
Com que idade a andropausa começa
Convém separar duas perguntas que costumam vir juntas.
A queda hormonal começa por volta dos 40 anos, no ritmo aproximado de 1% ao ano já mencionado. Isso é fisiológico e acontece de forma silenciosa.
A procura por consulta acontece bem mais tarde. Na prática de consultório, o homem que chega com queixa intensa o bastante para motivar investigação costuma ter mais de 45 ou 50 anos. Antes disso o sintoma existe, mas raramente incomoda a ponto de virar uma ida ao médico.
Sobre frequência, os números publicados pela Sociedade Brasileira de Urologia ajudam a dimensionar o problema. Segundo a SBU, a DAEM afeta de 5% a 7% dos homens acima dos 40 anos, proporção que sobe para algo entre 20% e 30% acima dos 60. Depois dos 40, portanto, a grande maioria dos homens não tem deficiência androgênica, e o quadro só se torna comum na faixa etária mais alta.
Sintomas da andropausa e por que eles confundem
Os sintomas mais associados à testosterona baixa são queda ou ausência de desejo sexual, dificuldade de ereção, cansaço que o descanso não resolve, perda de massa muscular e de força, alterações de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, piora do sono e redução da densidade óssea.
O problema dessa lista é que nenhum item dela é específico. Cada um desses sintomas tem várias causas mais frequentes do que a queda hormonal. Apneia do sono, depressão, hipotireoidismo, uso de determinados medicamentos, sobrepeso, diabetes, consumo excessivo de álcool e privação crônica de sono produzem exatamente o mesmo conjunto de queixas, com frequência bem maior.
A consequência disso é direta. A lista de sintomas serve para justificar uma avaliação médica, e só. Ela não fecha diagnóstico, e qualquer texto que sugira o contrário está simplificando algo que não pode ser simplificado.
Por que o normal do laudo não é o normal do médico
Essa é a parte que quase nunca aparece nos textos sobre o assunto, e que responde à maior parte das dúvidas de quem já fez o exame e continuou sem saber o que concluir.
Quando você dosa testosterona total, o laudo traz o seu resultado e, ao lado, uma faixa de referência. Essa faixa é estatística. Ela descreve o que se costuma encontrar na população que fez aquele mesmo exame naquele laboratório, incluindo homens de vinte e de setenta anos, saudáveis e doentes. Ela nunca foi construída para definir quem precisa de tratamento.
A decisão clínica usa outro número, chamado ponto de corte, e ele fica mais alto do que a maioria das pessoas imagina. A Associação Americana de Urologia adota 300 ng/dL como corte razoável para investigar deficiência de testosterona. A Associação Europeia de Urologia trabalha com um valor próximo de 350 ng/dL. O Dr. Nilson adota 350 ng/dL na sua prática, que é o critério mais conservador dos dois e inclui na investigação homens que o corte de 300 deixaria de fora.
Convém dizer desde já que nenhum desses números decide coisa alguma sozinho. Uma dosagem isolada, sem sintomas associados, não tem valor diagnóstico. O ponto de corte serve para interpretar o exame de alguém que já chegou ao consultório com queixa, e nunca para transformar um resultado de laboratório em diagnóstico por si só.
O desdobramento disso é comum no consultório. Um homem com sintomas evidentes e testosterona de 320 recebe um laudo classificado como dentro da faixa, entende que o assunto está resolvido e vai embora sem investigação. Não estava resolvido.
Duas dosagens, ambas pela manhã
A testosterona oscila ao longo do dia. Ela é mais alta pela manhã e vai caindo com o passar das horas, de modo que uma coleta feita à tarde pode registrar um valor baixo em alguém com produção perfeitamente normal.
Por isso o critério aceito exige duas dosagens de testosterona total, colhidas em dias diferentes e ambas pela manhã, preferencialmente antes das 10h. Uma medida isolada é indício, não diagnóstico.
E mesmo o exame alterado não basta sozinho
Aqui se fecha o raciocínio. Exame alterado sem sintoma não caracteriza DAEM, e sintoma sem exame alterado também não. O diagnóstico exige as duas coisas ao mesmo tempo.
A diretriz da Associação Americana de Urologia é explícita nesse ponto. Deficiência de testosterona é uma síndrome clínica, e não um número de laboratório, razão pela qual homens sem sintomas não devem ser tratados apenas por apresentarem exame baixo.
O que está em jogo quando se trata sem diagnóstico
Testosterona não é suplemento, é medicamento hormonal, e o uso sem indicação tem consequências previsíveis que costumam ser omitidas.
A principal delas é que a testosterona administrada de fora desliga a produção do próprio corpo. O organismo entende que já existe hormônio suficiente circulando e reduz o que produzia. Junto com essa redução cai também a produção de espermatozoides, o que compromete a fertilidade, às vezes de forma prolongada. Para quem ainda pretende ter filhos, essa informação muda a decisão, e raramente ela é apresentada antes do início do tratamento.
Existem outros efeitos que exigem acompanhamento, como o aumento do hematócrito, que precisa ser monitorado com exames periódicos ao longo de todo o tratamento.
Sobre a pergunta mais frequente de todas, se a reposição de testosterona causa câncer de próstata, a evidência disponível hoje não sustenta essa relação de causa.
Isso está longe de significar que o hormônio pode ser iniciado sem cuidado. Antes de qualquer reposição é necessária uma avaliação global completa do paciente, e ela inclui obrigatoriamente a próstata. Essa exigência vale ainda mais para quem já tem fatores de risco para câncer de próstata, como histórico familiar da doença ou alteração prévia em exame, e o acompanhamento se mantém ao longo de todo o tratamento. A ausência de relação de causa comprovada na literatura não substitui essa avaliação, e ninguém deveria iniciar reposição hormonal sem tê-la feito.
Nada disso é argumento contra tratar. É argumento a favor de tratar quem tem diagnóstico, e de investigar antes as outras causas possíveis, já que em boa parte dos casos o cansaço e a queda de libido vêm de algo que a reposição hormonal não resolveria.
Quando procurar avaliação
Se você tem mais de 40 anos e convive com queda de desejo sexual, dificuldade de ereção, cansaço que não passa com descanso ou perda de massa muscular, o passo seguinte não é começar hormônio nem solicitar o exame por conta própria.
O caminho é procurar avaliação com um urologista com formação em andrologia, que vai investigar as outras causas capazes de produzir esses mesmos sintomas, solicitar as dosagens do jeito correto, interpretar o resultado contra o critério clínico em vez da faixa impressa no laudo e, havendo diagnóstico, conduzir o tratamento com acompanhamento.
A andropausa, entendida como uma parada de produção hormonal, é um rótulo que não corresponde ao que acontece. A deficiência de testosterona associada ao envelhecimento é real, tem critério para ser diagnosticada e tem tratamento para quem de fato a tem.
Referências: Sociedade Brasileira de Urologia, Portal da Urologia. American Urological Association, Testosterone Deficiency Guideline. European Association of Urology, Guidelines on Male Hypogonadism.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica.
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