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Hormônios Publicado em 10 de setembro de 2026 9 min de leitura

Andropausa existe mesmo, ou é um rótulo?

Dr. Nilson Marquardt Filho no consultório

A palavra andropausa foi construída por empréstimo. Alguém observou que a testosterona do homem cai com a idade, lembrou da menopausa e criou o paralelo. A comparação pegou, virou título de reportagem e nome de tratamento, mas ela não descreve bem o que acontece no corpo masculino.

Na mulher, a menopausa é um evento delimitado. Os ovários param de produzir hormônio, a menstruação acaba e existe uma data para marcar no calendário. No homem não há nada equivalente. A produção de testosterona diminui devagar, ao longo de décadas, em ritmos que variam bastante de uma pessoa para outra, e boa parte dos homens envelhece sem jamais chegar a um nível que justifique tratamento.

Por isso a resposta à pergunta do título tem duas partes. A andropausa entendida como uma menopausa masculina não existe. Já a condição que essa palavra tenta descrever é real, tem nome próprio, critério de diagnóstico e tratamento. Confundir as duas coisas é o que leva muito homem a tomar hormônio sem necessidade, e faz com que outros tantos, que realmente precisariam de investigação, nunca cheguem a ser avaliados.

O que o termo andropausa deixa de fora

O sufixo pausa carrega a ideia de interrupção, e é justamente isso que não acontece com o homem.

A queda da testosterona masculina é progressiva. De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia, ela gira em torno de 1% ao ano a partir dos 40. É pouco de um ano para o outro e é bastante ao longo de vinte, o que explica por que o sintoma costuma ser percebido como envelhecimento comum e não como uma mudança que mereça consulta.

Existe ainda uma segunda diferença, mais importante do que a primeira na hora de decidir conduta. A menopausa acontece em praticamente todas as mulheres. A queda hormonal com repercussão clínica não acontece em todos os homens. Ela depende do ponto de partida de cada organismo, da velocidade dessa queda e da presença de outras condições de saúde que interferem na produção hormonal.

O nome correto é Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino

Quando a queda de testosterona passa a produzir sintomas, ela deixa de ser envelhecimento e passa a ser diagnóstico. A medicina chama esse quadro de Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino, abreviado como DAEM. Na literatura internacional o mesmo quadro aparece como hipogonadismo tardio ou deficiência de testosterona.

A troca de termo não é preciosismo de vocabulário, porque os dois nomes descrevem coisas diferentes. Andropausa nomeia uma fase da vida, algo que aconteceria com todo mundo e sobre o que não haveria decisão a tomar. DAEM nomeia uma condição clínica, que uma parcela das pessoas tem, que se confirma por critério e que se trata quando confirmada. É o primeiro enquadramento, o de fase inevitável da vida, que sustenta a oferta de reposição hormonal masculina para quem não tem indicação nenhuma.

Com que idade a andropausa começa

Convém separar duas perguntas que costumam vir juntas.

A queda hormonal começa por volta dos 40 anos, no ritmo aproximado de 1% ao ano já mencionado. Isso é fisiológico e acontece de forma silenciosa.

A procura por consulta acontece bem mais tarde. Na prática de consultório, o homem que chega com queixa intensa o bastante para motivar investigação costuma ter mais de 45 ou 50 anos. Antes disso o sintoma existe, mas raramente incomoda a ponto de virar uma ida ao médico.

Sobre frequência, os números publicados pela Sociedade Brasileira de Urologia ajudam a dimensionar o problema. Segundo a SBU, a DAEM afeta de 5% a 7% dos homens acima dos 40 anos, proporção que sobe para algo entre 20% e 30% acima dos 60. Depois dos 40, portanto, a grande maioria dos homens não tem deficiência androgênica, e o quadro só se torna comum na faixa etária mais alta.

Sintomas da andropausa e por que eles confundem

Os sintomas mais associados à testosterona baixa são queda ou ausência de desejo sexual, dificuldade de ereção, cansaço que o descanso não resolve, perda de massa muscular e de força, alterações de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, piora do sono e redução da densidade óssea.

O problema dessa lista é que nenhum item dela é específico. Cada um desses sintomas tem várias causas mais frequentes do que a queda hormonal. Apneia do sono, depressão, hipotireoidismo, uso de determinados medicamentos, sobrepeso, diabetes, consumo excessivo de álcool e privação crônica de sono produzem exatamente o mesmo conjunto de queixas, com frequência bem maior.

A consequência disso é direta. A lista de sintomas serve para justificar uma avaliação médica, e só. Ela não fecha diagnóstico, e qualquer texto que sugira o contrário está simplificando algo que não pode ser simplificado.

Por que o normal do laudo não é o normal do médico

Essa é a parte que quase nunca aparece nos textos sobre o assunto, e que responde à maior parte das dúvidas de quem já fez o exame e continuou sem saber o que concluir.

Quando você dosa testosterona total, o laudo traz o seu resultado e, ao lado, uma faixa de referência. Essa faixa é estatística. Ela descreve o que se costuma encontrar na população que fez aquele mesmo exame naquele laboratório, incluindo homens de vinte e de setenta anos, saudáveis e doentes. Ela nunca foi construída para definir quem precisa de tratamento.

A decisão clínica usa outro número, chamado ponto de corte, e ele fica mais alto do que a maioria das pessoas imagina. A Associação Americana de Urologia adota 300 ng/dL como corte razoável para investigar deficiência de testosterona. A Associação Europeia de Urologia trabalha com um valor próximo de 350 ng/dL. O Dr. Nilson adota 350 ng/dL na sua prática, que é o critério mais conservador dos dois e inclui na investigação homens que o corte de 300 deixaria de fora.

Régua de testosterona total mostrando a faixa de referência do laboratório, o corte de 300 ng/dL da Associação Americana de Urologia, o corte de 350 ng/dL da Associação Europeia de Urologia adotado pelo Dr. Nilson, e um resultado de 320 ng/dL de paciente com sintomas, que fica dentro da faixa do laboratório e abaixo do corte clínico.

Convém dizer desde já que nenhum desses números decide coisa alguma sozinho. Uma dosagem isolada, sem sintomas associados, não tem valor diagnóstico. O ponto de corte serve para interpretar o exame de alguém que já chegou ao consultório com queixa, e nunca para transformar um resultado de laboratório em diagnóstico por si só.

O desdobramento disso é comum no consultório. Um homem com sintomas evidentes e testosterona de 320 recebe um laudo classificado como dentro da faixa, entende que o assunto está resolvido e vai embora sem investigação. Não estava resolvido.

Duas dosagens, ambas pela manhã

A testosterona oscila ao longo do dia. Ela é mais alta pela manhã e vai caindo com o passar das horas, de modo que uma coleta feita à tarde pode registrar um valor baixo em alguém com produção perfeitamente normal.

Por isso o critério aceito exige duas dosagens de testosterona total, colhidas em dias diferentes e ambas pela manhã, preferencialmente antes das 10h. Uma medida isolada é indício, não diagnóstico.

E mesmo o exame alterado não basta sozinho

Aqui se fecha o raciocínio. Exame alterado sem sintoma não caracteriza DAEM, e sintoma sem exame alterado também não. O diagnóstico exige as duas coisas ao mesmo tempo.

A diretriz da Associação Americana de Urologia é explícita nesse ponto. Deficiência de testosterona é uma síndrome clínica, e não um número de laboratório, razão pela qual homens sem sintomas não devem ser tratados apenas por apresentarem exame baixo.

O que está em jogo quando se trata sem diagnóstico

Testosterona não é suplemento, é medicamento hormonal, e o uso sem indicação tem consequências previsíveis que costumam ser omitidas.

A principal delas é que a testosterona administrada de fora desliga a produção do próprio corpo. O organismo entende que já existe hormônio suficiente circulando e reduz o que produzia. Junto com essa redução cai também a produção de espermatozoides, o que compromete a fertilidade, às vezes de forma prolongada. Para quem ainda pretende ter filhos, essa informação muda a decisão, e raramente ela é apresentada antes do início do tratamento.

Existem outros efeitos que exigem acompanhamento, como o aumento do hematócrito, que precisa ser monitorado com exames periódicos ao longo de todo o tratamento.

Sobre a pergunta mais frequente de todas, se a reposição de testosterona causa câncer de próstata, a evidência disponível hoje não sustenta essa relação de causa.

Isso está longe de significar que o hormônio pode ser iniciado sem cuidado. Antes de qualquer reposição é necessária uma avaliação global completa do paciente, e ela inclui obrigatoriamente a próstata. Essa exigência vale ainda mais para quem já tem fatores de risco para câncer de próstata, como histórico familiar da doença ou alteração prévia em exame, e o acompanhamento se mantém ao longo de todo o tratamento. A ausência de relação de causa comprovada na literatura não substitui essa avaliação, e ninguém deveria iniciar reposição hormonal sem tê-la feito.

Nada disso é argumento contra tratar. É argumento a favor de tratar quem tem diagnóstico, e de investigar antes as outras causas possíveis, já que em boa parte dos casos o cansaço e a queda de libido vêm de algo que a reposição hormonal não resolveria.

Quando procurar avaliação

Se você tem mais de 40 anos e convive com queda de desejo sexual, dificuldade de ereção, cansaço que não passa com descanso ou perda de massa muscular, o passo seguinte não é começar hormônio nem solicitar o exame por conta própria.

O caminho é procurar avaliação com um urologista com formação em andrologia, que vai investigar as outras causas capazes de produzir esses mesmos sintomas, solicitar as dosagens do jeito correto, interpretar o resultado contra o critério clínico em vez da faixa impressa no laudo e, havendo diagnóstico, conduzir o tratamento com acompanhamento.

A andropausa, entendida como uma parada de produção hormonal, é um rótulo que não corresponde ao que acontece. A deficiência de testosterona associada ao envelhecimento é real, tem critério para ser diagnosticada e tem tratamento para quem de fato a tem.

Referências: Sociedade Brasileira de Urologia, Portal da Urologia. American Urological Association, Testosterone Deficiency Guideline. European Association of Urology, Guidelines on Male Hypogonadism.

Dr. Nilson Marquardt Filho
Dr. Nilson Marquardt Filho

Urologista. CRM-RS 47.856 · RQE 45.634 | CRM-SP 270.351 · RQE 136.152
Atendimento por telemedicina para todo o Brasil.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica.

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