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Medicina sexual Publicado em 28 de outubro de 2026 11 min de leitura

Prótese peniana inflável e maleável: como funciona cada uma e o que nenhuma resolve

Prótese peniana inflável de três volumes, fora do corpo: dois cilindros, reservatório e bomba, ligados por tubos.

A prótese peniana é um dispositivo colocado inteiramente dentro do pênis, por meio de cirurgia, para devolver a rigidez necessária à relação sexual quando os outros tratamentos da disfunção erétil não funcionaram. Existem dois modelos: a inflável, formada por cilindros, um pequeno reservatório e uma bomba acionada pelo próprio paciente, e a maleável, formada por dois bastões flexíveis que mantêm o pênis sempre firme e são posicionados com a mão.

Por fora, nenhuma das duas aparece, e a diferença está no dia a dia: a inflável alterna entre ereção e flacidez de um jeito mais parecido com o natural, e a maleável mantém o pênis sempre firme, sem nenhum mecanismo para acionar. Este texto explica como cada uma funciona, o que costuma pesar na escolha entre elas, quais são os riscos e, com a mesma clareza, o que a prótese não resolve.

O que é a prótese peniana e quando ela entra no tratamento

A disfunção erétil, que muita gente ainda chama de impotência, é a dificuldade persistente de obter ou manter uma ereção firme o bastante para a relação sexual. Ela é comum e fica mais frequente com a idade. No Massachusetts Male Aging Study, levantamento de referência feito nos Estados Unidos e publicado em 1994, 52% dos homens de 40 a 70 anos relataram algum grau do problema. Diabetes, pressão alta e cigarro aumentam a chance de ele aparecer e a sua gravidade.

A maior parte dos homens responde bem aos comprimidos. Quando eles não bastam, as injeções aplicadas diretamente no pênis têm taxas de sucesso acima de 85%, mesmo em quem não respondeu aos comprimidos, segundo revisão que publicamos em 2026 no International Braz J Urol. Ainda assim, parte dos homens deixa de usá-las com o tempo, e o dispositivo a vácuo é outra possibilidade. A prótese peniana é indicada para quem não respondeu a esses tratamentos, não os tolerou ou não ficou satisfeito com eles. Os casos mais comuns são os de diabéticos de longa data, de homens operados de câncer de próstata, de quem tem doença de Peyronie junto com a disfunção erétil e de quem tem doença vascular avançada.

Como a cirurgia não pode ser desfeita, a prótese é o último degrau do tratamento. Ainda assim, o assunto não precisa esperar o fim do caminho. Costumo mencionar a prótese já na primeira consulta, mesmo quando ela não é o próximo passo, porque muitos pacientes chegam achando que, se o comprimido falhou, não há mais nada a fazer. Saber que existe uma saída para esse momento muda a forma de encarar o tratamento inteiro.

Como funciona a prótese peniana inflável?

A prótese peniana inflável, também chamada de prótese de três volumes, tem três partes ligadas por tubos finos. Dois cilindros ficam dentro dos corpos cavernosos, as duas câmaras internas do pênis que se enchem de sangue na ereção natural. Um reservatório com soro fica na parte baixa do abdome, e uma pequena bomba fica na bolsa escrotal. Todas as partes ficam dentro do corpo.

Ilustração em corte lateral da pelve masculina mostrando a prótese peniana inflável de três volumes: dois cilindros dentro do pênis, reservatório de soro na parte baixa do abdome e bomba na bolsa escrotal, ligados por tubos.
  • Cilindros: colocados dentro dos corpos cavernosos do pênis.
  • Reservatório com soro: fica na parte baixa do abdome.
  • Bomba: fica na bolsa escrotal.
Apertar a bomba leva o soro do reservatório para os cilindros, e o pênis fica rígido; um botão na própria bomba devolve o líquido ao reservatório.

Para ter a ereção, o homem aperta a bomba algumas vezes pela pele da bolsa escrotal. A cada aperto, o soro passa do reservatório para os cilindros, e o pênis fica rígido. Depois da relação, um botão de liberação na própria bomba devolve o líquido ao reservatório, e o pênis volta ao estado flácido.

É o modelo em que a ereção e a flacidez ficam mais naturais e mais discretas, porque em repouso o pênis não fica firme. O uso da bomba é ensinado na consulta de retorno, e com algumas semanas de prática passa a fazer parte da rotina.

Como funciona a prótese peniana maleável?

A prótese peniana maleável, também chamada de semirrígida, é formada por dois bastões flexíveis colocados dentro dos corpos cavernosos, sem bomba nem reservatório. O pênis fica sempre firme, e o próprio paciente o posiciona, para cima na hora da relação e para baixo no dia a dia, dentro da roupa.

Ilustração da prótese peniana maleável: dois bastões flexíveis, um reto e outro dobrado, sem bomba nem reservatório.
Bastões flexíveis, colocados dentro dos corpos cavernosos do pênis. O próprio paciente posiciona o pênis, para cima na relação e para baixo no dia a dia.

No Brasil, é o modelo mais utilizado, principalmente por custo e disponibilidade. A adaptação passa por se acostumar com o pênis sempre firme, o que pode ser percebido em algumas situações, como ao usar roupa justa ou de banho. Como os bastões são dobrados muitas vezes ao longo dos anos, a estrutura interna deles pode fraturar, e em alguns pacientes a pressão constante sobre os tecidos aumenta o risco de erosão, uma complicação rara em que o dispositivo desgasta o tecido ao redor até aparecer na pele ou na uretra.

Inflável ou maleável: o que pesa na escolha

A decisão de colocar uma prótese é médica e nasce da avaliação, que confirma se os tratamentos anteriores foram tentados de forma adequada e se a saúde geral permite a cirurgia. Já a escolha do modelo é feita em conjunto, considerando o perfil de cada paciente, a destreza manual para usar a bomba, cirurgias anteriores na região, as expectativas do casal e o custo. A tabela resume as diferenças práticas entre os dois.

Prótese inflável x prótese maleável: as diferenças práticas
Prótese inflávelPrótese maleável
ComponentesDois cilindros, reservatório no abdome e bomba na bolsa escrotalDois bastões flexíveis
Como se obtém a ereçãoApertando a bomba; um botão devolve o pênis ao estado flácidoPosicionando o pênis com a mão
Em repousoFlácido, com aparência próxima da naturalSempre firme
Desgaste com os anosAlguma peça pode deixar de funcionar e ser trocada em nova cirurgiaOs bastões podem fraturar e ser trocados em nova cirurgia
AdaptaçãoAlgumas semanas de treino com a bombaAcostumar-se com o pênis sempre firme
CustoMaiorMenor

A prótese peniana tem finalidade funcional, diferente de uma prótese de mama colocada por estética: ela devolve a capacidade de ter relação sexual. Por isso, quando o custo entra na conversa, ele costuma ser olhado ao longo do tempo. O custo da cirurgia se concentra num momento só, enquanto o tratamento contínuo com comprimidos ou injeções se repete todos os meses, por muitos anos. A indicação continua sendo médica, e a prótese entra quando esses tratamentos não deram o resultado esperado.

Nos dois modelos, a participação da parceria na conversa ajuda a alinhar o que esperar da cirurgia e da vida depois dela.

O que a prótese peniana não resolve?

A prótese resolve a rigidez, e saber com precisão o que fica de fora dela é a parte da conversa que mais protege o paciente de frustração. Por isso esse assunto acontece antes da decisão.

Ela não aumenta o pênis. Muitos homens percebem o pênis menor do que nas ereções naturais de anos atrás, porque a própria doença já levou a alguma perda de comprimento e porque a glande, a cabeça do pênis, não enche da mesma forma com a prótese.

Ela também não trata o desejo. Libido baixa, testosterona baixa e dificuldades no relacionamento continuam precisando de cuidado próprio, antes ou depois da cirurgia. Sensibilidade, ejaculação e orgasmo, por sua vez, continuam como eram antes, porque não dependem dos corpos cavernosos.

A cirurgia é irreversível. Se a prótese precisar ser retirada, as ereções naturais e a resposta a comprimidos ou injeções praticamente deixam de existir, porque o tecido de dentro dos corpos cavernosos passa a ser ocupado pelo dispositivo. É por isso que ela fica para o fim do caminho.

Por fim, a prótese exige adaptação. Na inflável, usar a bomba leva algumas semanas de treino. Na maleável, é preciso se acostumar com o pênis sempre firme no dia a dia.

Quando essas limitações estão claras desde o começo, a satisfação costuma ser alta. Em um estudo publicado em 2019 na revista Current Urology, que entrevistou pacientes um ano ou mais depois da cirurgia de prótese inflável, 83,2% dos homens e 85,4% das parcerias se declararam satisfeitos.

Quais são os riscos da prótese peniana?

A principal complicação é a infecção, porque, quando acontece, geralmente obriga a retirar a prótese. Em primeiras cirurgias com os dispositivos atuais, a taxa de infecção fica em torno de 1% a 3%, segundo revisão publicada em 2019 na Therapeutic Advances in Urology, e é mais alta em reoperações, em pessoas com a imunidade baixa e em diabéticos com a glicemia descontrolada.

O revestimento com antibiótico é um dos fatores que mais reduziram esse risco. Em uma revisão sistemática com metanálise que publicamos em 2026 no International Journal of Impotence Research, reunindo mais de 100 mil pacientes, as próteses infláveis revestidas com antibiótico tiveram cerca de 60% menos infecção do que as não revestidas, sem diferença entre as duas principais marcas do mercado. O estudo está na página de publicações, com link para o original.

O segundo risco é o desgaste do dispositivo com o passar dos anos. Na inflável, alguma das peças pode deixar de funcionar; na maleável, a estrutura interna dos bastões pode fraturar. Nos dois casos, a prótese pode ser trocada em nova cirurgia. Hematoma, posicionamento inadequado de algum componente e, raramente, erosão completam as complicações possíveis.

Como são a cirurgia e a recuperação?

A cirurgia costuma levar de uma a duas horas, e a alta acontece no mesmo dia ou depois de uma noite de internação. Dor e inchaço nos primeiros dias são esperados e controlados com analgésicos. Atividades leves voltam em cerca de uma semana, e esforço físico em algumas semanas.

A relação sexual costuma ser liberada entre quatro e seis semanas depois da cirurgia, se a cicatrização estiver adequada. No caso da prótese inflável, é também nessa consulta de retorno que o paciente aprende a usar a bomba, antes de usá-la em casa.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma prótese peniana?

A prótese inflável costuma durar muitos anos. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2022 na revista Urology, com 12 estudos e mais de 20 mil pacientes, encontrou 87,2% das próteses funcionando aos 5 anos, 76,8% aos 10 anos e 63,7% aos 15 anos, e pouco mais da metade ainda funcionando aos 20 anos. Na maleável, a estrutura interna dos bastões pode fraturar com o passar dos anos. Quando há falha, a prótese pode ser trocada em nova cirurgia.

Dá para tirar a prótese peniana depois?

A prótese pode ser retirada, mas a cirurgia não pode ser desfeita. Sem ela, as ereções naturais e a resposta a comprimidos ou injeções praticamente deixam de existir, porque o tecido de dentro do pênis foi ocupado pelo dispositivo. Por isso a prótese só é indicada depois dos outros tratamentos.

Quem tem diabetes pode colocar prótese peniana?

Pode. Diabéticos de longa data estão entre os casos mais comuns de indicação. O cuidado está no controle da glicemia antes da cirurgia, porque o diabetes descompensado aumenta o risco de infecção, e essa avaliação faz parte da consulta que antecede a indicação.

Como se aprende a usar a bomba da prótese inflável?

O treino começa na consulta de retorno, entre quatro e seis semanas depois da cirurgia, quando o paciente aprende a localizar a bomba, acioná-la e usar o botão de liberação. Leva algumas semanas de prática até o uso ficar natural, e a participação da parceria nesse período costuma ajudar.

Por onde começar

A conversa sobre prótese começa pela história do tratamento: o que já foi tentado, por quanto tempo e com que resultado, além das condições de saúde que mudam o risco da cirurgia, como o controle do diabetes. Se o paciente quiser, a parceria participa dessa conversa. É a partir dessa avaliação que se define se a prótese é indicada e, sendo indicada, qual modelo atende melhor ao seu caso.

Referências: Infection rates in primary inflatable penile prosthesis: a systematic review and meta-analysis of antibiotic-coated versus non-coated devices. International Journal of Impotence Research, 2026. DOI 10.1038/s41443-026-01314-8. Impotence and its medical and psychosocial correlates: results of the Massachusetts Male Aging Study. Journal of Urology, 1994. DOI 10.1016/s0022-5347(17)34871-1. An update on the best approaches to prevent complications in penile prosthesis recipients. Therapeutic Advances in Urology, 2019. DOI 10.1177/1756287218818076. Beyond oral therapies: a practical approach to overcoming barriers to intracavernosal injection therapy in clinical practice. International Braz J Urol, 2026. DOI 10.1590/S1677-5538.IBJU.2026.0409. Erectile dysfunction: a global review of intracavernosal injectables. World Journal of Urology, 2019. Clinical outcome: patient and partner satisfaction after penile implant surgery. Current Urology, 2019. Long-term survival rates of inflatable penile prostheses: systematic review and meta-analysis. Urology, 2022.

Dr. Nilson Marquardt Filho
Dr. Nilson Marquardt Filho

Urologista. CRM-RS 47.856 · RQE 45.634 | CRM-SP 270.351 · RQE 136.152

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