Cerca de três em cada dez homens dizem ter ejaculação precoce quando alguém pergunta diretamente. É um dos números mais altos de toda a saúde masculina, e ele ajuda a entender por que o assunto sustenta uma indústria inteira de solução rápida, de produto de farmácia a técnica prometida em vídeo.
Quando se aplica o critério clínico, o número muda bastante. Um estudo que avaliou o mesmo grupo de homens por três métodos diferentes encontrou 77% quando a pergunta era aberta, cerca de 49% quando se usava um questionário de rastreio e pouco mais de 6% quando se aplicava a definição formal da Sociedade Internacional de Medicina Sexual.
A leitura disso não é que os outros estejam inventando. É que a maior parte dos homens preocupados com o assunto não tem o quadro clínico, tem uma preocupação com o assunto. E essas duas coisas pedem condutas diferentes, o que é exatamente o motivo deste texto existir.
A diferença entre achar que tem e ter
A queixa chega ao consultório quase sempre com as mesmas palavras, e raramente com as palavras da medicina. A pesquisa que a pessoa faz antes de marcar consulta costuma ser "como durar mais na cama", não "tempo de latência ejaculatória". Isso não é ignorância, é como qualquer um formularia a dúvida.
O problema é que essa formulação parte de uma premissa que nunca foi conferida, a de que existe um tempo certo e a de que o tempo da pessoa está abaixo dele. Boa parte da angústia em torno do tema vem de comparação com referências que não existem na vida real, e uma parte considerável dos homens que chegam com essa queixa está dentro da média sem saber.
Por isso a primeira coisa que uma consulta faz não é tratar. É verificar se há o que tratar.
O que define clinicamente a ejaculação precoce
O diagnóstico não depende de um único fator, e é aqui que a maioria dos textos sobre o tema simplifica demais. São três componentes, e eles precisam estar presentes juntos.
O primeiro é o tempo. Existe uma medida, o tempo entre a penetração e a ejaculação, e as referências das sociedades médicas variam de um a três minutos, conforme o quadro esteja presente desde o início da vida sexual ou tenha começado em algum momento depois. O Dr. Nilson trabalha com o corte de três minutos, que é a referência da Sociedade Internacional de Medicina Sexual para a forma que aparece mais tarde e é o mais amplo dos cortes usados, porque inclui na avaliação quem os critérios mais estreitos deixariam de fora.
Vale dizer que esse número não existe para medir ninguém. Ele serve para orientar a conversa no consultório, e é o menos decisivo dos três componentes.
O segundo é o controle. A pessoa sente que não consegue adiar a ejaculação, de forma consistente, mesmo tentando.
O terceiro é o incômodo. Existe sofrimento, frustração ou afastamento da vida sexual por causa disso, para a pessoa ou para o casal.
Faltando qualquer um dos três, não se fecha o diagnóstico. Um tempo curto que não incomoda ninguém não é doença. Um incômodo grande com um tempo dentro da normalidade é outro problema, real e tratável, mas não esse.
Quem procura, e com que idade
A faixa que chega ao consultório com essa queixa é ampla, indo dos 18 aos 59 anos. É diferente de outras condições da saúde masculina, que se concentram em uma faixa específica, e isso tem uma explicação simples: a ejaculação precoce não é uma condição do envelhecimento.
Ela pode estar presente desde a primeira relação ou aparecer depois de anos de vida sexual sem queixa nenhuma. As duas formas existem, têm causas diferentes e respondem de maneiras diferentes ao tratamento. Quando o quadro é recente, a investigação precisa procurar o que mudou, porque muitas vezes há algo por trás, como uma dificuldade de ereção que começou antes e passou despercebida.
O que o tratamento resolve
Para quem fecha critério, existe tratamento com resultado consistente, e vale dizer com todas as letras que a maioria dos homens melhora.
Há medicação de uso contínuo, tomada todos os dias, que leva algumas semanas para mostrar efeito. Há medicação tomada algumas horas antes da relação, para quem prefere não usar nada no dia a dia. Há tratamento de aplicação local, que reduz a sensibilidade e exige alguns cuidados de uso, inclusive em relação à parceira ou parceiro. Há técnicas comportamentais, que a pessoa aprende e passa a usar sozinha ou com a parceria. E há trabalho da musculatura do assoalho pélvico, que tem evidência crescente.
A escolha entre esses caminhos depende do quadro, da idade, do que a pessoa já tentou, de outras condições de saúde e de outros medicamentos em uso. Não existe um tratamento que seja o melhor para todo mundo, e desconfiar de quem afirma o contrário é um bom filtro.
Há ainda uma situação em que o tratamento resolve mais do que a queixa original. Quando existe dificuldade de ereção junto, tratar a ereção às vezes melhora a ejaculação sem que nada mais precise ser feito, porque parte do que parecia pressa era a tentativa de aproveitar uma ereção que a pessoa temia perder.
O que o tratamento não resolve
Esta seção é a razão do título, e é a parte que costuma ficar de fora.
O tratamento não entrega controle absoluto nem um número no relógio. Ele desloca uma média, e continua havendo variação de uma relação para outra, como sempre houve.
O efeito da medicação existe enquanto ela é usada. Interrompida, o quadro tende a voltar ao que era antes, e isso precisa estar claro desde o começo, porque muita gente inicia um tratamento imaginando que serão algumas semanas e depois o problema estará encerrado.
O tratamento também não resolve o que não é da ejaculação. Conflito no relacionamento, distanciamento entre o casal, ansiedade de desempenho instalada há anos, tudo isso costuma continuar ali depois que o tempo melhora. Em boa parte dos casos o caminho mais eficiente combina a conduta clínica com acompanhamento psicológico ou terapia sexual, e isso não é um consolo oferecido a quem não tem solução, é o que funciona.
E há o caso de quem não fecha critério. Para o homem cujo tempo está dentro da normalidade e cujo incômodo vem da expectativa, as diretrizes recomendam orientação e terapia, não medicação. Isso é uma boa notícia mal embalada. Significa que não há nada a corrigir no corpo.
Por que as soluções rápidas costumam decepcionar
A busca por produtos e técnicas que prometem resultado imediato é compreensível. O tema envolve constrangimento, e procurar sozinho na internet é mais fácil do que marcar uma consulta e falar sobre isso em voz alta.
O que torna esse caminho frustrante é que ele pula justamente a etapa que decide tudo, que é saber o que a pessoa tem. Um produto de aplicação local usado por quem não precisa reduz o prazer sem motivo. Uma técnica de adiamento aplicada a um quadro que tem causa clínica não vai longe. E qualquer coisa comprada sem orientação assume o risco de interagir com outro medicamento em uso.
Nada disso é argumento para procurar ajuda por vergonha de ter tentado antes. É argumento para inverter a ordem, avaliando primeiro e tratando depois.
Quando vale procurar avaliação
Se a ejaculação acontece antes do que você gostaria, de forma frequente, e isso vem incomodando você ou a relação, vale conversar com um médico, mesmo que a resposta acabe sendo que está tudo dentro do esperado.
A consulta com um urologista com formação em andrologia vai investigar desde quando o quadro existe, o que mudou se ele é recente, se há dificuldade de ereção associada, que medicamentos você usa, e como isso está afetando a sua vida. A partir daí é possível dizer se há diagnóstico e qual conduta faz sentido no seu caso.
É uma conversa de consultório como outra qualquer, e os profissionais que atendem essa área conversam sobre isso todos os dias.
Referências: American Urological Association e Sexual Medicine Society of North America, Disorders of Ejaculation Guideline. International Society for Sexual Medicine, definição unificada de ejaculação precoce. Literatura de epidemiologia da ejaculação precoce.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui consulta médica.
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